Agentes externos de morfogénese terrestre 2) Água - Principal agente de meteorização, erosão, transporte e sedimentação. - A circulação da água no planeta constitui o “ciclo hidrológico” – fonte de energia: energia solar - A distribuição da água na superfície terrestre é muito desigual - Diferentes formas ou aspectos da água originam diferentes modelados rochosos:
o Águas selvagens (torrentes) o Rios o Mares o Glaciares Processos do ciclo hidrológico: - evaporação - transpiração - precipitação (queda de neve, granizo, pluviosidade) - glaciação - escorrência superficial - infiltração Distribuição de água no planeta: - oceanos e mares....................97,1% - glaciares e calotes...................2,1% - água subterrânea.....................0,6% - rios e lagos..............................0,015% - vapor de água (atmosfera).......0,001% a) Águas selvagens: - águas de escorrência superficial; resultam de fortes chuvadas e / ou degelo - escorrem sem direcção definida porque não têm um leito próprio - a acção erosiva das águas selvages depende o cobertura vegetal: quanto menor a vegetação, maior a acção erosiva e transporte o declive do terreno: quanto maior o declive, maior a acção erosiva e transporte o permeabilidade do terreno: quanto maior permeabilidade, maior erosão Aspectos resultantes da sua acção em formações rochosas: - Graníticas – as águas penetram através de fissuras das rochas, provocando a sua arenização o disfunção esferoidal o caos ou penhas (amontoado) o mares de blocos - Maciço calcário – forma paisagens cársicas: o dolinas o campos de lapiás – sulcos no cimo de um terreno calcário o calcários ruiniformes o algares o grutas - Sedimentares (detríticos heterogéneos): o abarrancamentos/ravinamentos: o escoamento superficial das águas selvagens, quando concentrado, pode escavar sulcos que se aprofundam rapidamente. Formam cristas estreitas que se rebaixam o chaminés-de-fada ou pirâmides de terra: consiste no desgaste das rochas menos duras, devido à acção erosiva das águas selvagens, ficando no topo os calhaus ou blocos mais resistentes. Quanto maior o declive, maior a erosão vertical e maior a altura das chaminés. o torrentes: curso de água da montanha com débito intermitente ou temporário, com leito próprio e forte declive As torrentes têm 3 zonas: § bacia de recepção (predomina a erosão e o transporte) § canal de escoamento (predomina a erosão e o transporte): sob o efeito da pressão da água e dos sedimentos transportados o canal de escoamento pode alargar-se, formando marmitas de gigante § cone de dejecção (à saída do canal de escoamento, onde se depositam os materiais. Predomina a sedimentação) Causas: desflorestação, destruição da cobertura vegetal, má localização da pastagem Medidas a tomar: reflorestamento, correcto ordenamento do território, construção de paredões de betão b) Rios - curso de água com débito (caudal) permanente e com leito próprio - são os principais agentes modeladores da superfície terrestre (no plano da erosão, transporte e sedimentação) Bacia hidrográfica ou fluvial: área onde as águas fluviais ou resultantes do degelo drenam ou confluem num curso principal através de afluentes Rede hidrográfica: conjunto do curso principal e respectivos afluentes Factores que influenciam a erosão, transporte e sedimentação de um rio: - declive – inclinação do leito relativamente ao nível de base geral - velocidade das águas (m/s) - área de secção do leito: área = largura x profundidade - débito/caudal – volume de água transportado por segundo (m3/s) - competência – tamanho dos maiores sedimentos transportados, de acordo com a sua velocidade - carga/ capacidade – volume total de sedimentos transportados por um rio, independentemente do tamanho desses. Acção geológica dos rios: - Nível de base: o geral – nível médio das águas do mar. Nível em função do qual todos os rios regulam o seu leito, procurando atingir o perfil de equilíbrio. Variação do nbg: descida ou subida do nível médio das águas do mar. § Causas: degelo (subida), glaciação (descida), movimentos de blocos litosféricos § Consequências: terraços fluviais (descida), planícies aluviais (subida) – ocorre uma intensa sedimentação o local – obstáculo natural (ex: escoada lávida) ou artificial (barragem) em função do qual o rio passa a regularizar o leito troço a montante (para cima) ou a jusante (para baixo) desse obstáculo. - Perfil de equilíbrio – meta ideal, ausência de irregularidades no leito. Erosão é quase nula. Transporte = sedimentação. - Erosão regressiva – progressão no leito de um rio no sentido contrário ao da corrente (de jusante para montante). É responsável pelo progressivo desaparecimento das irregularidades de um rio, tais como: rápidos, cascatas e cataratas (cascatas de grandes dimensões) Transporte de aluviões num rio: - olamento (+) (granulometria do material transportado) - arrastamento - saltação - suspensão (lodo) ( -) Zonas do rio (perfil transversal): - leito - leito de inundação - linha de água - margem Zonas ou secções do leito de um rio: - curso superior – predomina a erosão - curso inferior – predomina a sedimentação Quanto maior a: - largura, maior a descarga e menor a velocidade e declive - profundidade, maior a descarga e menor a velocidade e declive Sedimentação de aluviões: - Bancos de areia: deposições de aluviões pouco vastas, ao longo do leito do rio e resultantes de um abrandamento da velocidade. - Deltas e estuários: a confluência de um rio com o mar ou lago faz-se através de uma região ou área designada por embocadura, que pode ser em forma de delta ou estuário. o Deltas – intensa sedimentação (grande carga do rio e correntes marítimas fracas para a transportar). O meio continental avanç no meio marinho. Existência de várias ilhas. Tem forma de triângulo. (ex: Rio Niger, Rio Nilo) o Estuário – menor sedimentação (menor carga sedimentar e correntes marítimas mais fortes, que removem os aluviões) Ex: Tejo e Sado - Planície aluvial – áreas vastas e planas, resultantes da deposição de aluviões na sequência de inundações típicas de um rio no seu estado de velhice (declives pouco acentuados) - Deposições aluviais: o Cabedelo ou restinga – prolongamento da faixa litoral através da acumulação de sedimentos num cabo construído naturalmente, e com uma extremidade livre (Cabedelo do Porto) o Tômbolo – união de uma pequena ilha ao litoral continental através da deposição de sedimentos de origem fluvio-marinha (Peniche) o Half-delta – sistema lagunar no qual ocorre sedimentação de origem fluvio-marinha; os cordões litorais possibilitam águas calmas, nas quais se constituem ilhotas. (Ria Formosa de Aveiro) o Cordões litorais – formados devido à sedimentação marinha litoral. São acumulações de calhaus que constituem uma barreira natural de alguns metros o Praia em ponta – praia que apresenta uma zona mais avançada em relação ao mar. Se encontrar uma ilha constitui um Tômbolo. (Sines) Evolução de um rio: - Formação de meandros - Formação de terraços fluviais - Ciclo fluvial - fases: juventude, maturidade, velhice ou senilidade - Meandro – curva no leito de um rio resultante da contínua erosão das águas na margem côncava e sedimentação na margem convexa. Os meandros resultam do facto das rochas constituintes do leito terem diferentes resistências o Meandros abandonados ou braços mortos – quando há uma deposição de sedimentos que separa o antigo meandro do curso do rio. Quando contém água, o meandro é designado por lago em ferradura. o Meandros encaixados – quando as suas sinuosidades correspondem às de um vale que corta um planalto o Meandros livres ou divagantes – desenvolvem-se em planícies aluviais - Formação de terraços fluviais: sequência de antigos leitos fluviais, os quais foram baixando porque o rio, através da erosão, foi baixando o seu leito para atingir um novo perfil de equilíbrio (causa: a descida do nível de base geral) - Fases do ciclo fluvial- dependem essencialmente do grau de: o erosão e transporte o sedimentação o declive o irregularidades do leito o granulometria dos aluviões o meandros o vales | Fase juventude | Fase maturidade | Fase velhice | Erosão/transporte | + | +- | - | Sedimentação | - | +- | + | Declive | + | +- | - | Irregularidades | + | +- | - | Aluviões | Grosseiros | Moderados | Finos; Bancos de areia, deltas, planícies aluviais | Meandros | | Encaixados ou de vale | Divagantes ou divergentes, braços mortos, lagos em ferradura. | Vales | | Profundos | Amplos | Ciclo fluvial: Fase juventude à Maturidade à Velhice Mas por rejuvenescimento do rio, devido à descida do nível de base geral, pode ocorrer Fase velhice à maturidade à juventude c) Mares - acção geológica: transporte, erosão e sedimentação - o mar actua de diferentes formas: ondas (rebentação), correntes marítimas e marés - orla costeira: falésias, escarpas, arribas Consequências da rebentação: - “Ripple marks” – estruturas sedimentares caracterizadas por formas onduladas no topo dos estratos (com alguns centímetros) e resultantes da ondulação marinha - recuo da falésia – devido ao arrancamento de material diverso à falésia e ao efeito abrasivo desse na zona litoral. O recuo depende da litologia da falésia, da intensidade da rebentação e da estrutura dos sedimentos transportados Plataforma de abrasão marinha – zona da plataforma continental, exposta durante a maré baixa e causada pela abrasão marinha (ondas e salpicos), que faz recuar a arriba. O material sedimentar fica seleccionado pela sua granulometria junto à falésia e o material mais fino (cascalho e areia), mais afastado da falésia. Por vezes, durante o recuo da arriba, e devido à acção da rebentação contínua sobre a escarpa ocorre uma derrocada (desagregação da base de sustentação) e posterior sedimentação. Zonas de sedimentação marinha: - Zona litoral ou costeira (até 10 metros) o sedimentos de origem detrítica (rochas compostas por restos diversos detritos e cimentada por sílica ou calcite) com variadas dimensões (areias, argilas, cascalhos) o sedimentos de precipitação – origem química (salinas, carbonatados) - Zona nerítica (até 200 metros) o inclui plataforma continental o sedimentos orgânicos e detríticos e de precipitação - Zona batial (até 2.000 metros) o inclui talude continental (grande declive) o sedimentos tipo vasas (argilosas) - Zona abissal (até 10.000 metros) o inclui grandes abismos e planícies abissais o sedimentos essencialmente vasas organogénicas Variação do nível de base e sedimentação: - Quando se dá uma subida do nível do mar: o Avanço da linha da costa pelo continente o Sequência estratigráfica (ou sedimentar) positiva/normal/transgressiva (os sedimentos são mais grosseiros na base do que no topo. Há um aumento na sedimentação) - Quando se dá uma descida do nível do mar: o Recuo da linha de costa o Sequência estratigráfica negativa/inversa/regressiva (os sedimentos são mais grosseiros no topo da sequência do que na base. Formam-se praias levantadas ou terraços marinhos) d) Glaciares - massa de gelo deslizante, num leito com forte declive, pela acção da gravidade - resulta da acumulação, compactação e cristalização do nevado (neve que não funde), devido às contínuas e baixas temperaturas Factores que influenciam a acção erosiva de um glaciar: - declive do leito glaciário - espessura da massa de gelo - fluxo de nevado - litologia das rochas do leito Fendas existentes num glaciar: - fendas transversais ou “crevasses” (perpendiculares à língua glaciária) – resultam do aumento brusco do declive do leito - fendas longitudinais – resultam do alargamento do leito Tipos de glaciares: 1) Alpino ou de Vale 2) Pirenaio, Suspenso ou de Circo 3) Polar ou Inlandesis 4) Fiorde 1) Alpino ou de Vale: - Bacia de recepção ou acumulação do nevado; - Língua glaciária que desliza por um vale, enquanto se mantiver no estado sólido; - Formação de vales glaciários (vales em U) 2) Pirenaio, Suspenso ou de Circo: - Depressões circulares onde se acumulam neves perpétuas; - Não há formação de línguas glaciárias; - As alterações de temperatura podem originar lagos. 3) Polar ou Inlandesis: - Calotes, que quando se fragmentam, junto ao oceano, originam icebergues que se deslocam no oceano por influência das correntes marítimas e ventos. - Icebergues: - Árticos – irregulares e pequenos - Antárticos – tabulares e grandes 4) Fiorde: - A língua glaciária causa erosão no vale glaciário até a uma cota inferior ao nível das águas do mar; - Devido ao aumento da temperatura global, o glaciar funde; - O mar avança e ocupa o antigo vale glaciário, constituindo um braço de mar – fiorde. - Ex: Noruega, Gronelândia, Sul do Chile Acção geológica nos planos da: a) Erosão b) Transporte c) Sedimentação a) Erosão: A massa de gelo deslizante tem um grande efeito erosivo no leito glaciário na medida em que as rochas, em contacto com o glaciar, ficam estriadas, polidas e pulverizadas. Os sedimentos resultantes da acção abrasiva do glaciar designam-se de moreias. Estas são transportadas pelo glaciar e depositadas quando há degelo. Têm granulometria variada. São materiais detríticos soltos. Tipos de moreias (quanto à sua localização no glaciar): - Moreias laterais – resultam da erosão das margens do vale glaciário, são detritos do talude - Moreia mediana ou média – resulta da confluência de duas moreias laterais de outros glaciares - Moreias internas – detritos transportados no interior da massa de gelo e que cairam nas “crevasses” - Moreias frontais ou terminais – material arrastado pelo glaciar na sua zona frontal - Moreias de fundo – material resultante do efeito abrasivo do glaciar no contacto com as rochas do leito glaciário; são resultantes do forte desgaste e causam profunda erosão Alguns aspectos geológicos da morfologia glaciária: a) blocos erráticos; b) vales glaciários; c) lagos de barragem / lagoas glaciárias; d) rochas aborregadas ou arrebanhadas; e) torrentes glaciárias. a) Blocos erráticos – são fragmentos rochosos transportados pelo glaciar, por vezes a longas distâncias do leito do local onde foram capturados ou gerados. Têm litologia diferente das rochas envolventes no local de deposição. b) Vales glaciários – o trabalho erosivo dos glaciares cava vales em berço (vales de fundo chato em forma de U) c) Lagos em barragem – lagos de origem glaciária, cuja água resultou do degelo do glaciar que ficou retida pela moreia frontal depositada e a qual delimita esses lagos d) Rochas aborregadas – quando o glaciar desliza no leito glaciário, algumas rochas ficam com as suas arestas arredondadas, devido ao desgaste e) Torrentes glaciárias – resultam do degelo Algumas hipóteses relativas à formação de glaciares e de períodos glaciários: - Redução na taxa da radiação solar, devido a oscilações na órbita de translacção da Terra em torno do Sol e no ângulo de rotação da Terra em torno do seu próprio eixo. - Emissão de grandes quantidades de cinzas vulcânicas (que tapavam a luz solar) - Redução da percentagem atmosférica de CO2 Alguns exemplos, em Portugal Continental, de glaciações quaternárias: (2 em 2 milhões de anos) a) Glaciação Wurmiana, Serra da Estrela b) Vale glaciário em U, Zêzere c) Blocos erráticos, Poio do Judeu d) Lagoas glaciárias, Serra da Estrela (Comprida, Escura e Redonda) e) Moreias, Penhas Douradas, Gerês f) Circos glaciários |