Erosão - Água PDF Imprimir e-mail
Escrito por Francisco Vasconcelos   

Agentes externos de morfogénese terrestre

2) Água

-          Principal agente de meteorização, erosão, transporte e sedimentação.

-          A circulação da água no planeta constitui o “ciclo hidrológico” – fonte de energia: energia solar

-          A distribuição da água na superfície terrestre é muito desigual

-          Diferentes formas ou aspectos da água originam diferentes modelados rochosos:

o   Águas selvagens (torrentes)

o   Rios

o   Mares

o   Glaciares

 

Processos do ciclo hidrológico:

-          evaporação

-          transpiração

-          precipitação (queda de neve, granizo, pluviosidade)

-          glaciação

-          escorrência superficial

-          infiltração

 

Distribuição de água no planeta:

-          oceanos e mares....................97,1%

-          glaciares e calotes...................2,1%

-          água subterrânea.....................0,6%

-          rios e lagos..............................0,015%

-          vapor de água (atmosfera).......0,001%

 

a)    Águas selvagens:

-          águas de escorrência superficial; resultam de fortes chuvadas e / ou degelo

-          escorrem sem direcção definida porque não têm um leito próprio

-          a acção erosiva das águas selvages depende

o   cobertura vegetal: quanto menor a vegetação, maior a acção erosiva e transporte

o   declive do terreno: quanto maior o declive, maior a acção erosiva e transporte

o   permeabilidade do terreno: quanto maior permeabilidade, maior erosão

 

Aspectos resultantes da sua acção em formações rochosas:

-          Graníticas – as águas penetram através de fissuras das rochas, provocando a sua arenização

o   disfunção esferoidal

o   caos ou penhas (amontoado)

o   mares de blocos

-          Maciço calcário – forma paisagens cársicas:

o   dolinas

o   campos de lapiás – sulcos no cimo de um terreno calcário

o   calcários ruiniformes

o   algares

o   grutas

-          Sedimentares (detríticos heterogéneos):

o   abarrancamentos/ravinamentos: o escoamento superficial das águas selvagens, quando concentrado, pode escavar sulcos que se aprofundam rapidamente. Formam cristas estreitas que se rebaixam

o   chaminés-de-fada ou pirâmides de terra: consiste no desgaste das rochas menos duras, devido à acção erosiva das águas selvagens, ficando no topo os calhaus ou blocos mais resistentes. Quanto maior o declive, maior a erosão vertical e maior a altura das chaminés.

o   torrentes: curso de água da montanha com débito intermitente ou temporário, com leito próprio e forte declive

 

As torrentes têm 3 zonas:

§  bacia de recepção (predomina a erosão e o transporte)

§  canal de escoamento (predomina a erosão e o transporte): sob o efeito da pressão da água e dos sedimentos transportados o canal de escoamento pode alargar-se, formando marmitas de gigante

§  cone de dejecção (à saída do canal de escoamento, onde se depositam os materiais. Predomina a sedimentação)

 

Causas: desflorestação, destruição da cobertura vegetal, má localização da pastagem

Medidas a tomar: reflorestamento, correcto ordenamento do território, construção de paredões de betão 

 

b)   Rios

-          curso de água com débito (caudal) permanente e com leito próprio

-          são os principais agentes modeladores da superfície terrestre (no plano da erosão, transporte e sedimentação)

 

Bacia hidrográfica ou fluvial: área onde as águas fluviais ou resultantes do degelo drenam ou confluem num curso principal através de afluentes

 

Rede hidrográfica: conjunto do curso principal e respectivos afluentes

 

Factores que influenciam a erosão, transporte e sedimentação de um rio:

-          declive – inclinação do leito relativamente ao nível de base geral

-          velocidade das águas (m/s)

-          área de secção do leito: área = largura x profundidade

-          débito/caudal – volume de água transportado por segundo (m3/s)

-          competência – tamanho dos maiores sedimentos transportados, de acordo com a sua velocidade

-          carga/ capacidade – volume total de sedimentos transportados por um rio, independentemente do tamanho desses.

 

Acção geológica dos rios:

-          Nível de base:

o   geral – nível médio das águas do mar. Nível em função do qual todos os rios regulam o seu leito, procurando atingir o perfil de equilíbrio.

Variação do nbg: descida ou subida do nível médio das águas do mar.

§  Causas: degelo (subida), glaciação (descida), movimentos de blocos litosféricos

§  Consequências: terraços fluviais (descida), planícies aluviais (subida) – ocorre uma intensa sedimentação

o   local – obstáculo natural (ex: escoada lávida) ou artificial (barragem) em função do qual o rio passa a regularizar o leito troço a montante (para cima) ou a jusante (para baixo) desse obstáculo.

-          Perfil de equilíbrio – meta ideal, ausência de irregularidades no leito. Erosão é quase nula. Transporte = sedimentação.

-          Erosão regressiva – progressão no leito de um rio no sentido contrário ao da corrente (de jusante para montante). É responsável pelo progressivo desaparecimento das irregularidades de um rio, tais como: rápidos, cascatas e cataratas (cascatas de grandes dimensões)

 

Transporte de aluviões num rio:

-          olamento                  (+)     (granulometria do material transportado)    

-          arrastamento

-          saltação

-          suspensão (lodo)            ( -)

 

Zonas do rio (perfil transversal):

-          leito

-          leito de inundação

-          linha de água

-          margem

 

Zonas ou secções do leito de um rio:

-          curso superior – predomina a erosão

-          curso inferior – predomina a sedimentação

 

Quanto maior a:

-          largura, maior a descarga e menor a velocidade e declive

-          profundidade, maior a descarga e menor a velocidade e declive

 

Sedimentação de aluviões:

-          Bancos de areia: deposições de aluviões pouco vastas, ao longo do leito do rio e resultantes de um abrandamento da velocidade.

-          Deltas e estuários: a confluência de um rio com o mar ou lago faz-se através de uma região ou área designada por embocadura, que pode ser em forma de delta ou estuário.

o   Deltas – intensa sedimentação (grande carga do rio e correntes marítimas fracas para a transportar). O meio continental avanç no meio marinho. Existência de várias ilhas. Tem forma de triângulo. (ex: Rio Niger, Rio Nilo)

o   Estuário – menor sedimentação (menor carga sedimentar e correntes marítimas mais fortes, que removem os aluviões) Ex: Tejo e Sado

-          Planície aluvial – áreas vastas e planas, resultantes da deposição de aluviões na sequência de inundações típicas de um rio no seu estado de velhice (declives pouco acentuados)

-          Deposições aluviais:

o   Cabedelo ou restinga – prolongamento da faixa litoral através da acumulação de sedimentos num cabo construído naturalmente, e com uma extremidade livre (Cabedelo do Porto)

o   Tômbolo – união de uma pequena ilha ao litoral continental através da deposição de sedimentos de origem fluvio-marinha (Peniche)

o   Half-delta – sistema lagunar no qual ocorre sedimentação de origem fluvio-marinha; os cordões litorais possibilitam águas calmas, nas quais se constituem ilhotas. (Ria Formosa de Aveiro)

o   Cordões litorais – formados devido à sedimentação marinha litoral. São acumulações de calhaus que constituem uma barreira natural de alguns metros

o   Praia em ponta – praia que apresenta uma zona mais avançada em relação ao mar. Se encontrar uma ilha constitui um Tômbolo. (Sines)

 

Evolução de um rio:

-          Formação de meandros

-          Formação de terraços fluviais

-          Ciclo fluvial - fases: juventude, maturidade, velhice ou senilidade

 

-          Meandro – curva no leito de um rio resultante da contínua erosão das águas na margem côncava e sedimentação na margem convexa. Os meandros resultam do facto das rochas constituintes do leito terem diferentes resistências

o   Meandros abandonados ou braços mortos – quando há uma deposição de sedimentos que separa o antigo meandro do curso do rio. Quando contém água, o meandro é designado por lago em ferradura.

o   Meandros encaixados – quando as suas sinuosidades correspondem às de um vale que corta um planalto

o   Meandros livres ou divagantes – desenvolvem-se em planícies aluviais

-          Formação de terraços fluviais: sequência de antigos leitos fluviais, os quais foram baixando porque o rio, através da erosão, foi baixando o seu leito para atingir um novo perfil de equilíbrio (causa: a descida do nível de base geral)

-          Fases do ciclo fluvial- dependem essencialmente do grau de:

o   erosão e transporte

o   sedimentação

o   declive

o   irregularidades do leito

o   granulometria dos aluviões

o   meandros

o   vales

 

 

Fase juventude

Fase maturidade

Fase velhice

Erosão/transporte

+

+-

-

Sedimentação

-

+-

+

Declive

+

+-

-

Irregularidades

+

+-

-

Aluviões

Grosseiros

Moderados

Finos; Bancos de areia,           deltas, planícies aluviais

Meandros

 

Encaixados ou de vale

Divagantes ou divergentes, braços mortos, lagos em ferradura.

Vales

 

Profundos

Amplos

 

Ciclo fluvial: Fase juventude à Maturidade à Velhice

Mas por rejuvenescimento do rio, devido à descida do nível de base geral, pode ocorrer Fase velhice à maturidade à juventude

 

c)    Mares

-          acção geológica: transporte, erosão e sedimentação

-          o mar actua de diferentes formas: ondas (rebentação), correntes marítimas e marés

-          orla costeira: falésias, escarpas, arribas

 

Consequências da rebentação:

-          “Ripple marks” – estruturas sedimentares caracterizadas por formas onduladas no topo dos estratos (com alguns centímetros) e resultantes da ondulação marinha

-          recuo da falésia – devido ao arrancamento de material diverso à falésia e ao efeito abrasivo desse na zona litoral. O recuo depende da litologia da falésia, da intensidade da rebentação e da estrutura dos sedimentos transportados

 

Plataforma de abrasão marinha – zona da plataforma continental, exposta durante a maré baixa e causada pela abrasão marinha (ondas e salpicos), que faz recuar a arriba. O material sedimentar fica seleccionado pela sua granulometria junto à falésia e o material mais fino (cascalho e areia), mais afastado da falésia.

 

Por vezes, durante o recuo da arriba, e devido à acção da rebentação contínua sobre a escarpa ocorre uma derrocada (desagregação da base de sustentação) e posterior sedimentação.

 

Zonas de sedimentação marinha:

-          Zona litoral ou costeira (até 10 metros)

o   sedimentos de origem detrítica (rochas compostas por restos diversos detritos e cimentada por sílica ou calcite) com variadas dimensões (areias, argilas, cascalhos)

o   sedimentos de precipitação – origem química (salinas, carbonatados)

-          Zona nerítica (até 200 metros)

o   inclui plataforma continental

o   sedimentos orgânicos e detríticos e de precipitação

-          Zona batial (até 2.000 metros)

o   inclui talude continental (grande declive)

o   sedimentos tipo vasas (argilosas)

-          Zona abissal (até 10.000 metros)

o   inclui grandes abismos e planícies abissais

o   sedimentos essencialmente vasas organogénicas

 

Variação do nível de base e sedimentação:

-          Quando se dá uma subida do nível do mar:

o   Avanço da linha da costa pelo continente

o   Sequência estratigráfica (ou sedimentar) positiva/normal/transgressiva (os sedimentos são mais grosseiros na base do que no topo. Há um aumento na sedimentação)

-          Quando se dá uma descida do nível do mar:

o   Recuo da linha de costa

o   Sequência estratigráfica negativa/inversa/regressiva (os sedimentos são mais grosseiros no topo da sequência do que na base. Formam-se praias levantadas ou terraços marinhos)

 

d)   Glaciares

-          massa de gelo deslizante, num leito com forte declive, pela acção da gravidade

-          resulta da acumulação, compactação e cristalização do nevado (neve que não funde), devido às contínuas e baixas temperaturas

 

Factores que influenciam a acção erosiva de um glaciar:

-          declive do leito glaciário

-          espessura da massa de gelo

-          fluxo de nevado

-          litologia das rochas do leito

 

Fendas existentes num glaciar:

-          fendas transversais ou “crevasses” (perpendiculares à língua glaciária) – resultam do aumento brusco do declive do leito

-          fendas longitudinais – resultam do alargamento do leito

 

Tipos de glaciares:

1)      Alpino ou de Vale

2)      Pirenaio, Suspenso ou de Circo

3)      Polar ou Inlandesis

4)      Fiorde

 

1)      Alpino ou de Vale:

-          Bacia de recepção ou acumulação do nevado;

-          Língua glaciária que desliza por um vale, enquanto se mantiver no estado sólido;

-          Formação de vales glaciários (vales em U)

 

2)      Pirenaio, Suspenso ou de Circo:

-          Depressões circulares onde se acumulam neves perpétuas;

-          Não há formação de línguas glaciárias;

-          As alterações de temperatura podem originar lagos.

 

3)      Polar ou Inlandesis:

-          Calotes, que quando se fragmentam, junto ao oceano, originam icebergues que se deslocam no oceano por influência das correntes marítimas e ventos.

-          Icebergues:

               - Árticos – irregulares e pequenos

- Antárticos – tabulares e grandes

 

4)      Fiorde:

-          A língua glaciária causa erosão no vale glaciário até a uma cota inferior ao nível das águas do mar;

-          Devido ao aumento da temperatura global, o glaciar funde;

-          O mar avança e ocupa o antigo vale glaciário, constituindo um braço de mar – fiorde.

-          Ex: Noruega, Gronelândia, Sul do Chile

 

Acção geológica nos planos da:

a)      Erosão

b)      Transporte

c)      Sedimentação

 

a)      Erosão:

A massa de gelo deslizante tem um grande efeito erosivo no leito glaciário na medida em que as rochas, em contacto com o glaciar, ficam estriadas, polidas e pulverizadas. Os sedimentos resultantes da acção abrasiva do glaciar designam-se de moreias. Estas são transportadas pelo glaciar e depositadas quando há degelo. Têm granulometria variada. São materiais detríticos soltos.

 

Tipos de moreias (quanto à sua localização no glaciar):

-          Moreias laterais – resultam da erosão das margens do vale glaciário, são detritos do talude

-          Moreia mediana ou média – resulta da confluência de duas moreias laterais de outros glaciares

-          Moreias internas – detritos transportados no interior da massa de gelo e que cairam nas “crevasses”

-          Moreias frontais ou terminais – material arrastado pelo glaciar na sua zona frontal

-          Moreias de fundo – material resultante do efeito abrasivo do glaciar no contacto com as rochas do leito glaciário; são resultantes do forte desgaste e causam profunda erosão

 

Alguns aspectos geológicos da morfologia glaciária:

a)      blocos erráticos;

b)      vales glaciários;

c)      lagos de barragem / lagoas glaciárias;

d)     rochas aborregadas ou arrebanhadas;

e)      torrentes glaciárias.

 

a)      Blocos erráticos – são fragmentos rochosos transportados pelo glaciar, por vezes a longas distâncias do leito do local onde foram capturados ou gerados. Têm litologia diferente das rochas envolventes no local de deposição.

b)      Vales glaciários – o trabalho erosivo dos glaciares cava vales em berço (vales de fundo chato em forma de U)

c)      Lagos em barragem – lagos de origem glaciária, cuja água resultou do degelo do glaciar que ficou retida pela moreia frontal depositada e a qual delimita esses lagos

d)     Rochas aborregadas – quando o glaciar desliza no leito glaciário, algumas rochas ficam com as suas arestas arredondadas, devido ao desgaste

e)      Torrentes glaciárias – resultam do degelo

 

Algumas hipóteses relativas à formação de glaciares e de períodos glaciários:

-          Redução na taxa da radiação solar, devido a oscilações na órbita de translacção da Terra em torno do Sol e no ângulo de rotação da Terra em torno do seu próprio eixo.

-          Emissão de grandes quantidades de cinzas vulcânicas (que tapavam a luz solar)

-          Redução da percentagem atmosférica de CO2

 

Alguns exemplos, em Portugal Continental, de glaciações quaternárias:

(2 em 2 milhões de anos)

a)      Glaciação Wurmiana, Serra da Estrela

b)      Vale glaciário em U, Zêzere

c)      Blocos erráticos, Poio do Judeu

d)     Lagoas glaciárias, Serra da Estrela (Comprida, Escura e Redonda)

e)      Moreias, Penhas Douradas, Gerês

f)       Circos glaciários

 
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